A dama de Baco


A Dama de Baco, ou The Baccus Lady, é um filme sul-coreano de 2016, dirigido por E J Yong. Narra o triste fim de uma prostituta velha, que oferece seus serviços nos parques de Seul. Um retrato cru da realidade das pessoas idosas, pobres e sozinhas que precisam enfrentar o peso da existência além da decrepitude. Infectada com uma doença venérea por conta da profissão So-Young encontra um garoto perdido na rua, deixado para trás depois de sua mãe esfaquear o pai. Ela o leva para sua casa onde também orbitam um homem mutilado e uma mulher trans, cada um com seus dramas. E os três se revezam na atenção, oferecendo mais do que podem.

Em meio aos cuidados com o garotinho So-Young segue com a vida de encontros fortuitos e acaba encontrando um antigo cliente que sofreu um derrame e que lhe pede para ajudar a acabar com a vida de sofrimento. A partir daí o filme vai revelando a triste existência dos velhos sul-coreanos perdidos na solidão e na pobreza. Apesar de ser considerada a décima primeira economia do mundo a Coreia do Sul registra a mais alta taxa de miséria entre pessoas idosas. Um drama recorrente na periferia capitalista onde o velho é considerado um inútil.

Num dos momentos do filme um documentarista que pede para entrevistar a prostituta pergunta a ela sobre o porquê de estar se prostituindo e ela diz: “foda-se a verdade. As pessoas não estão nem aí para isso”. O retrato mais acabado da realidade atual de um mundo no qual o estado se desobriga das pessoas restando a elas a solidariedade dos mais próximo que vivem tantas misérias quanto.

O filme é duro e triste, retratando uma Coreia para além dos doramas açucarados. Vale ver para compreender a extensão da miséria do capitalismo. Disponível no streaming Mubi. 


Reservation dogs


A dica de hoje é a série Reservation Dogs, ou Cães da Reserva, em português. Trata-se de uma produção dirigida, escrita e estrelada por indígenas, ambientada no estado de Oklahoma, nos Estados Unidos, onde vive o povo Cree. Ela está rotulada como comédia, mas tem seus momentos de profunda tristeza e reflexão. A produção é do neozelandês, Taika Waititi, que tem descendência Maori e a direção fica a cargo de Streling Harjo, dos povos originários dos Estados Unidos. 

A série gira em torno de um pequeno grupo de jovens que vive numa terra indígena, e que busca cotidianamente os meios para sair de lá, e fugir em direção da Califórnia, considerada a terra das oportunidades. Eles passam os dias entre a escola, o ócio e a invenção de pequenos e grandes furtos que praticam para juntar dinheiro. A cada episódio vai se descortinando a realidade das famílias que vivem nos espaços reservados aos indígenas, os dramas, os mitos, as histórias fantásticas, a solidariedade, o humor, as estratégias de sobrevivência, a relação com os não-indígenas num país tão marcado pelo racismo. 

Os jovens confinados nas terras indígenas sentem a vida escorrer pelas mãos, sem oportunidades, por isso o sonho de escapar. Mas, na medida em que vão se envolvendo com outros personagens mais velhos e, mergulhando na realidade de sua história e sua cultura, acabam percebendo que ali está uma realidade que precisa ser protegida e que a luta coletiva é o caminho. Os atores são de primeira qualidade e os roteiros intensos e emocionantes. É a primeira vez que a chamada “indústria cultural” abre espaço para uma produção assim uma vez que os indígenas sempre são retratados ou como vítimas de um passado que ficou para trás, ou como figurantes de uma história que parece não lhes pertencer. 

Na série Cães da Reserva eles aparecem como protagonistas de suas vidas, com todas as dores e belezas de ser quem são. Vale a pena conferir.

Pode ser vista, gratuitamente, no sítio seuseriado.com 


O gato amarelo


A dica de hoje é o filme cazaquistanês, “O gato amarelo”, produzido em 2020 e dirigido por Adilkhan Yerzhanov. Conta a história de um jovem que sai da cadeia disposto a mudar de vida, montando um cinema nas montanhas do Casaquistão, onde vive. Já no primeiro dia depois da liberdade ele tenta encontrar um emprego, mas é impedido por um policial, que é seu irmão e também parte de uma banda criminosa. A intenção é fazer com que ele volte a vida de crimes servindo a um bandido local, destino natural da gente daquele lugar. Sem saída ele vai e nessas andanças acaba conhecendo uma garota, que vive numa casa de prostituição. Ele ganha uma noite com ela e passa o tempo falando do seu sonho de montar o cinema, apaixonado que é pelo filme O samurai, com Alan Delon, que viu inúmeras vezes na prisão.

Os dias passam na calorenta e vazia estepe até que Kermek se vê diante da ordem de matar uma família inteira. Ele não cumpre e foge com o dinheiro, disposto a fazer acontecer o seu sonho. Mas, naquelas aldeias perdidas do Casaquistão, parece não haver possibilidade de fuga. Ainda assim, ele vai em busca da jovem prostituta e a leva junto para a aventura de construir o cinema. É uma relação mesclada com a dureza da realidade e a ternura que os dois conseguem ter apesar de tudo. As cenas são lindas e os diálogos cheios de pureza.

Mas, a cada passo que eles dão, a gangue que os persegue também chega, fazendo com que novamente tenham de fugir. Por fim, sem saída, Kermek tenta mudar seu destino conversando com o bandido local. “Porque temos de viver como cães? Por que não mudamos isso? “. Uma indagação que fica no silêncio.

O final é triste e impactante. Expressa toda a dureza de uma cultura e a brutalidade de um cotidiano que parece imutável. Retrata a triste lenda do gato amarelo, prática usada no Casaquistão para incendiar terrenos que depois serão tomados pela grilagem. Uma realidade tão distante e ao mesmo tempo tão próxima, pois assim como é lá no leste Europeu também pode ser numa favela em El Salvador ou num morro do Rio de Janeiro. 

O trabalho é lindo. A história é dura. Mas ainda assim, eivado de humanidade. O filme pode ser visto na plataforma Mubi.  


A voz suprema do blues


O filme é um encontro de gigantes. Não tem efeitos especiais, nem tiros, nem nada que roube a atenção. Tudo gira em torno de diálogos muito bem construídos e a maravilhosa atuação de Viola Davis, Chadwick Boseman e o veterano Glynn Turman. A história se fecha dentro de um dia de gravação da lendária  Mãe do Blues, Ma Rainey, na cidade de Chicago, na década de 1920, num tempo em que os negros brilhavam na música, mas seguiam sendo discriminados e roubados no seu talento e na sua riqueza musical. 

A trama traz os dramas vividos pelos negros no negócio da música e também se desenrola a partir de relações afetivas, ou não, entre os também talentosos músicos de Ma Rainey. Viola, que faz a mãe do blues, está sublime, expressando como ninguém a dualidade da vida do negro naqueles dias. Ela é famosa, rica, tem uma amante jovem e bonita, mas segue sendo tratada como um ser humano de segunda linha. Ela se rebela, do seu jeito. 

Na banda que a acompanha está um talentoso e ambicioso trompetista, Levee, que é interpretado por Chadwick Boseman, sendo esse seu último papel no cinema, pois logo veio a falecer de câncer. O personagem de Chad se engraça com a namorada de Ma e daí se aprofunda uma tensão que vai acompanhar todo o filme. Nos bastidores o jovem músico, que sonha fazer sucesso com suas próprias composições, vai se desentendendo com um dos colegas, enquanto acontecem discussões sobre o racismo na indústria da música, no país, sobre os dramas familiares e as dores de cada um.

No final do dia, tendo uma música sua recusada pelo produtor, que lhe oferece apenas comprar a composição por 500 dólares, a tragédia aflora a partir de um acontecimento prosaico. As vidas se destroçam enquanto a indústria da música segue seu caminho  branco e racista. É uma dolorosa história que pode ter sido a de centenas de jovens músicos e cantores  impedidos de brilhar por conta da cor. Uma história que não ficou no passado, mas segue ainda hoje no blues, no jazz e no rock.

Vale ver. Está no Netflix.  


Mazzaropi e o Jeca Tatu


Diante de todas as perplexidades que me vieram à cabeça depois de quatro dias discutindo sobre se havia ou não socialismo na América Latina, fui descansar a cabeça vendo filmes antigos. Então me caiu às mãos um clássico do Mazzaropi, chamado “Jeca Tatu”, realizado em 1959. Nesta película, o cinema nacional se mostra na sua plena beleza. Primeiro pela temática. Mazzaropi traz para a tela grande a vida do caipira, do homem rural, premido pelos fazendeiros que roubam terras, que enganam, que se aproveitam do homem simples do campo. Questões como a reforma agrária e a exploração dos trabalhadores rurais aparecem de forma clara, ainda que não fosse essa a intenção do cineasta. A fotografia do filme é uma belezura. A dramaticidade do preto e branco, os enquadramentos estonteantes, a plástica memorável. Coisa muito boa de se ver.

O Jeca Tatu é um pequeno agricultor que precisa comprar comida no armazém e, sem dinheiro, vai vendendo pedaços da terra, até ficar sem nada, tendo de migrar para a cidade. No filme, o dono do armazém é o safado que revende as terras ao latifundiário local. E o fazendeiro é o casca grossa que chega a incendiar a casa do Jeca para tirá-lo da terra. O inusitado é a solução que o povo local encontra para salvar o Jeca Tatu da desdita de ter de ir para a cidade. Eles se reúnem e vendem o voto a um deputado safado. Com essa composição de classe e saída ladina, o Jeca ganha uma casa nova e torna-se um bem sucedido agricultor. 1959 e parece que é hoje. Os mesmos safados de sempre e as técnicas de sobrevivência do povo oprimido.

Pouco sei sobre o Mazzaropi e suas filiações partidárias ou ideológicas, mas que seus filmes nos levam a profundas reflexões sobre a vida real do campo e da cidade, disso não tenho dúvidas. Mesmos as saídas enviesadas que os personagens tomam para resolver seus conflitos permitem longas meditações sobre o povo e o trabalhador brasileiro. Mazzaropi mesmo era um destes brasileiros reais, de vida cheia de percalços, pobreza, dureza. Fez-se sozinho, à facão, trabalhando no circo, que era sua paixão. Atuou no picadeiro até morrer e conta-se que nas lonas pobres ele não cobrava por apresentação. Produziu com dinheiro próprio todos os seus filmes, era um sonhador. Eternizou em película a pureza do caipira, os dramas do seu tempo, era um genial conhecedor da alma brasileira.

Hoje já não se vê mais os filmes do Mazzaropi na televisão, invadida pelo lixo estadunidense. É que os filmes do “Jeca” falam do Brasil profundo, expõe as feridas ainda abertas. Na sua pureza é pura rebelião, perigoso, portanto. Os personagens do Mazzaropi são aquelas criaturas que gostaríamos de ser: alegres, bondosas, generosas, cheias de pureza. É por isso que nos domingos de vadiagem é bom poder fruir desta beleza do cinema nacional. Porque de alguma forma nos encontramos com esse ser profundo que insiste em querer viver nesta selva capitalista que se tornou o mundo. Faça isso. Veja os filmes do Mazzaropi e descubra que houve um tempo neste país em que o cinema falava de nós. Hoje se fala, é fato, mas este que diz da nossa gente não encontra espaço nas salas de cinema, igualmente entupidas de lixo estadunidense.

É por isso que a cultura também tem de se rebelar. Oxalá encontrássemos saídas generosas, criativas e divertidas como as do “ Jeca Tatu”.


Corisco e Dadá




A dica de hoje é o filme brasileiro, roteirizado e dirigido pelo cearense Rosemberg Cariry, Corisco e Dadá. Lançado em 1996 ele conta parte da história do segundo mais famoso cangaceiro do sertão, Cristiano Gomes da Silva Cleto, conhecido como Corisco, o diabo loiro. A trama começa quando Corisco vai atrás de um homem que julga tê-lo traído. Lá, vê a filha do cabra, então com 12 anos. É Dadá. Para vingar-se decide levá-la com ele para o cangaço. A relação dos dois, que iria durar até a morte começa com um brutal estupro que quase mata a menina. Mas, ela se salva e segue com ele pelos caminhos do sertão.

O filme acontece a partir de uma história contada por uma mulher, a inesquecível Regina Dourado, na beira do mar, em algum lugar no nordeste. E ela quem vai lembrando as passagens de brutalidade, amor e ódio do cangaceiro, amigo dileto de Lampião. Mostra que apesar de toda a violência que perpassa a relação de Corisco e Dadá é ele quem vai ensiná-la a ler, escrever, fazer contas e atirar. Acompanhar a saga dos dois é se embrenhar pela dolorosa vida dos sertanejos do início do século vinte, quando toda a terra do sertão estava tomada pela violência dos coronéis, da polícia e do cangaço. Para as famílias havia pouca escolha. Ou sofriam os abusos dos donos das terras, ou da volante, ou dos cangaceiros. Era bem difícil viver em paz. A melhor saída era mesmo viver dentro do cangaço, onde pelo menos se morria lutando.

A obra de Cariry recria o ambiente do sertão na beleza da caatinga, com sua secura e crueza. Os diálogos são cheios de poesia, apesar de toda a carga de violência que a vida mesma apresenta. É uma jornada épica das gentes em luta e em fuga, na qual a vida vem e vai e a morte se apresenta em cada passo do caminho. Uma tortuosa façanha que apesar de brutal está eivada de esperança, misticismo e fé.

Chico Diaz no papel de Corisco está insuperável. Impossível se pensar outro rosto para esse personagem. E Dira Paes faz uma maravilhosa Dadá

No bando, Dadá acabou virando a costureira do grupo e é ela a responsável por todo o figurino que hoje conhecemos dos cangaceiros. Corisco ficou conhecido como um dos mais violentos cangaceiros do sertão. Morreu numa emboscada da volante de Zé Rufino em maio de 1940, dois anos depois da morte de Lampião. Dadá sobreviveu e morreu em 1994, com 78 anos. 

O filme, imprescindível para se conhecer a alma do sertanejo e a realidade brasileira, está livre no Youtube. É uma lindeza.

Jane Eyre


Para quem gosta de filmes românticos, ambientados na Inglaterra, com todo o drama recorrente da relação entre as pessoas empobrecidas e a aristocracia, a dica de hoje é Jane Eyre, um filme baseado no romance de Charlotte Brontë, que na época de seu lançamento, em 1847, foi considerado bastante vulgar. Apesar disso, ou por causa disso, fez bastante sucesso, ressaltando que ela escrevia sob pseudônimo. Há várias versões do filme, mas a que recomendo é a de 1944, dirigida pelo britânico Robert Stevenson, porque contém algumas preciosidades.  

Primeiro que é em preto e branco, depois porque apresenta a extraordinária Elisabeth Taylor ainda bem menina e já ostentando sua beleza fascinante, bem como seu talento. Os protagonistas são Orson Welles, também muito jovem, e a belíssima Joan Fontaine.  

A história é trivial. Uma menina órfã que sofre maus tratos na família e é mandada para um internato, onde também vive sob violência e abuso. Moça feita, ela decide ir embora em busca de vida melhor e vai parar na casa de um rico aristocrata, servindo de governanta para sua filha, fruto de uma união infeliz. Aí estão os ingredientes básicos para o romance. O jovem atormentado se apaixona pela bela empregada. Quando tudo se encaminha para um final feliz, um trágico segredo é revelado e a moça volta a pegar a estrada, tentando esquecer seu amor.  

A sequência da história segue a lógica da redenção, não há novidades, mas é verdadeiramente estimulante para quem ama cinema observar as atuações de figuras que foram ícones no seu tempo, bem como toda a precariedade da produção. Naqueles tempos os filmes eram definidos pela capacidade do diretor em explorar a luz e as tomadas em ambientes fechados. 

Jane Eyre pode ser visto, de graça, no Youtube. Procure a versão em preto e branco.