Floresta dos Segredos


Para quem gosta de séries policiais a dica de hoje é uma série sul-coreana chamada "Stranger (o título em inglês para a original Floresta dos Segredos), que tem um enredo bem diferenciados. O personagem principal é um procurador que não é capaz de expressar emoções, por conta de uma intervenção cirúrgica no passado. Fazendo par com ele tem um jovem policial que acaba dividindo com o procurador uma complexa investigação de assassinato que leva ao desmantelamento de altos figurões da política.  

A trama é inteligente, diferente e prende a gente em cada capítulo. Tem ainda a qualidade de trazer para nosso conhecimento a realidade do mundo coreano, seja na organização da justiça, da polícia ou dos costumes. O ator principal, Jo Seung-woo, é extraordinário, pois apesar de seu personagem não expressar as emoções ele consegue traduzir, em pequenos detalhes, a beleza do seu interior. Em vários momentos a gente se emociona e ri com o sisudo investigador, que tem a Justiça como sua meta principal. Todos lhe temem, pois ele não se furta de enfrentar os graúdos. 

Na segunda temporada ele está de volta a Seul, depois de ter sido enviado ao interior, como “punição” por ter cumprido seu dever. E, de novo, uma trama aparentemente aleatória vai enredando os grandões da política e da Justiça. E lá está ele com seu olhar impenetrável, para garantir que todos sejam punidos. A série é inteligente e divertida. A policial que faz parceria com o procurador é a atriz Dona Bae, igualmente sensacional. Vale ver. Tem na Netflix. 


Acusados


A dica de hoje é o filme Acusados, uma produção canado-estadunidense de 1988, dirigida por Jonathan Kaplan com roteiro de Tom Topor. A história foi protagonizada pela atriz Jodie Foster, que inclusive ganhou um Oscar pela sua atuação.  

No filme, uma garçonete de nome Sarah Tobias é estuprada por três homens em um bar local, enquanto outros assistem e aplaudem. Toda trama se desenvolve em cima do julgamento dos estupradores depois que Sara e a promotora Kathryn Murphy decidem processá-los, bem como aos outros que incentivaram o ataque.  

Realizado no final dos anos 1980, o filme mostra de maneira crua tanto a cena do estupro quanto as do julgamento no qual, obviamente, é a vida da garota que fica sob suspeita. A roupa que usava, estava bêbada, dançava sensualmente, estava sozinha num bar. O que poderia esperar? A atuação de Jodie Foster é impecável e sua personagem reforça aquilo que todas as mulheres do mundo insistem em deixar bem claro: quando se diz não, é não. Pouco importa se a mulher é santa ou puta. Pouco importa se está pelada ou vestida. Pouco importa se dança sensualmente ou está sentada. Pouco importa se está flertando ou não. Quando se diz não, é não.   

Acusados discute a situação de classe – Sara era uma garçonete - discute o ódio às mulheres, a parcialidade do judiciário, a hipocrisia da sociedade e a eterna proteção ao macho que não consegue ficar com seu órgão dentro das calças. 

É um filme duro de ver, mas necessário, principalmente quando vivemos numa sociedade que não mudou sequer um milímetro dos anos 1980 para cá no que diz respeito à mulher. E antes que alguém faça algum comentário imbecil é importante salientar que em países como Índia, onde o estupro é notícia diária, as mulheres andam cobertas dos pés à cabeça, não vão a bares sozinhas, não andam bêbadas. Logo, o estupro não diz respeito à mulher. O estupro é uma expressão de poder do macho e deve ser combatido sem trégua.  

Acusados é uma pedida necessária. Não deixe de ver. Está livre, no Youtube. 


Um retrato de mulher


A dica de hoje viaja para o passado, lá nos anos 1940, trazendo um filme da era de ouro do cinema. É o “Um retrato de mulher”, dirigido pelo austríaco/alemão Fritz Lang, enquadrado no gênero noir, uma espécie de subgênero dos filmes policiais e de suspense, bastante influenciado pelo expressionismo alemão. Consta inclusive que Lang teria sido convidado por Hitler, que era um amante do cinema, para fazer filmes de inspiração nazista. Foi aí que ele fugiu para Paris, chegando depois aos Estados Unidos.   

Um retrato de mulher mostra um momento da vida do professor Richard Wanley, interpretado por Edward G. Robinson, que dá aulas na Faculdade Gotham, em Nova York. Ele e os amigos ficam obcecados por um retrato de mulher visto numa galeria de arte, perto de um clube para cavalheiros que frequentam. Pois uma noite, depois de muita conversa sobre ela, Richard posta-se em frente ao retrato para mais uma mirada, e eis que ali aparece a misteriosa  modelo, interpretada por Joan Bennett. Eles iniciam uma conversa, que começa em um bar e continua na casa dela, onde ela lhe mostra o esboço de outros desenhos. Tudo vai bem até que aparece o então namorado da modelo que, enciumado, agride o professor. Richard consegue se esquivar, mas acaba matando o homem com uma tesoura.  

A partir daí o que poderia ser um encontro de amor vai se enredando numa trama de suspense, com os dois tentando esconder o corpo, livrar-se de um chantagista e buscando driblar a polícia. Ele mesmo acompanha as buscas e todo o trabalho de investigação junto com um amigo do clube, até que alguns pequenos detalhes vão colocando o professor como o principal suspeito. Sua vida de pequeno-burguês vai se desmoronando. 

É um filme bastante intrigante, com um roteiro bem amarrado e um final inusitado. Feito em preto e branco foge completamente da estética a qual estamos acostumados, a qual prioriza mais os efeitos que a trama. Em “Um retrato de mulher”, o que vale mesmo é o roteiro, a direção e o trabalho dos atores. Para quem gosta de fuçar o passado é uma boa pedida.  


Chocolate


Para quem gosta de romance a dica é uma série coreana chamada Chocolate. Ela traz a história de um amor que começa na infância e que vai se perdendo no tempo por conta dos caminhos que cada criança vai trilhando. Crescidos, eles voltam a se encontrar, mas apenas a moça o reconhece. Ele é médico e ela uma mulher em luta com seus dramas e traumas. Ao longo da série eles vão se reaproximando e se redescobrindo, ainda que cada um tenha de viver e enfrentar seus próprios demônios. 

A série não apenas reproduz uma história de amor e seus percalços, mas também dá uma boa visão da sociedade sul-coreana na qual ainda é muito forte o autoritarismo da família, dos mais velhos, dos homens e o valor das tradições. 

Chocolate centra sua narrativa no amor de Lee Kang e Moon Cha Young, mas também apresenta outros dramas paralelos, igualmente envolventes, tais como o do primo do protagonista, ensinado a odiá-lo por conta da herança familiar, o da mulher do diretor do hospital que tem Alzheimer e os dos pacientes no dispensário que atende doentes terminais no qual finalmente Lee e Moon Cha vão reconectar seu amor. É uma série cheia de pequenas ternuras, de delicadezas típicas da cultura oriental e repleta de momentos emocionantes. 

É uma história de amor, destas bem dramáticas, mas que vai se desenrolando para um final feliz, no qual cada personagem consegue ultrapassar as dores e encontrar novos caminhos de alegria e bem-viver. Um seriado para almas leves. Tem no Netflix.


Hinterland



A dica de hoje é a série Hinterland, uma produção inglesa que tem seus episódios todos gravados no molhado e cinzento País de Gales. Uma de suas singularidades é que cada cena das três temporadas que a compõe  - é uma série curta  - foi filmada duas vezes, em inglês e em galês, a língua local. É uma série policial, mas bastante diferenciada das que estão por aí. Não tem tecnologia, não tem tiros, não tem cenas aventurosas. Pelo contrário. É bastante simples, toda ela sustentada na atuação dos personagens e no modo de vida do País de Gales. Lá, pelo que se vê, os policiais sequer andam armados e enfrentam assassinos apenas com a perseverança da investigação e da inteligência.

A série tem episódios longos, de uma hora e meia,  e toda a produção é bastante cinematográfica. O tempo todo parece haver alguém espiando as cenas através de uma janela ou uma porta entreaberta. Não há, é só um recurso para manter a tensão do clima.

Os crimes vão sendo resolvidos na medida em que se descortinam vidas em escombros, seja por tradições familiares ou pela solidão, ou pelos traumas vividos na infância. Não há humor, os personagens são contidos e têm eles mesmos sua carga de sofrimento e dor. Ainda assim é possível se conectar com suas histórias e estabelecer laços de empatia, até porque os dois detetives, um homem solitário e uma mãe solteira, são íntegros e comprometidos com a justiça.  Também há uma dupla secundária de policiais, igualmente complexos e misteriosos.

O estranhamento que a série causa é justamente o seu espaço. Uma paisagem gelada, árida, e interiorana. Os episódios se desenvolvem na imensidão dos campos, nas vilas escondidas, nas fazendas esquecidas, nas solidões. Mas, apesar de tudo isso, assoma a humanidade dos policiais na interminável busca pelo que pode haver de belo no humano, apesar da crueza dos crimes. Uma opção para quem gosta de mistério e de humanidade. Tem na Netflix.

Terra em Transe



A dica de hoje é um clássico do cinema brasileiro, o filme Terra em Transe, lançado em 1967, roteirizado e dirigido por Glauber Rocha e coproduzido pela Mapa Filmes do Brasil. É considerado um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. 

A história se passa na fictícia República de Eldorado, na qual o poeta e jornalista Paulo Martins é ligado ao político conservador em ascensão, Porfírio Diaz, com quem também partilha a amante, Sílvia. Quando Diaz se elege senador, Paulo acaba conhecendo uma ativista de esquerda, Sara. A partir daí ele começa a se interessar pelo drama do povo e com Sara decide apoiar a candidatura de um vereador populista, Felipe Vieira,  para governador. A ideia é lançar um novo líder, progressista, que possa mudar a situação de miséria e de injustiça no país. A batalha é travada, Vieira ganha as eleições, mas acaba se rendendo às forças econômicas locais que o financiaram e não promove qualquer mudança. Um roteiro bastante conhecido na política do nosso país real, o Brasil.

Desiludido Paulo decide abandonar Sara e volta aos velhos amigos. Reencontra a antiga a amante e tenta novamente mudar as coisas aliando-se a um grande empresário visando barrar a candidatura do velho inimigo Porfírio Diaz. Paulo se alia outra vez com Vieira tentando evitar o mal maior que é Diaz, mas no fim, acaba traído pelo empresário aliado, que faz acordo com Diaz para seguir sendo abençoado pelo poder.

O filme é uma metáfora da política brasileira que se repete a cada tanto. O povo sofrendo, e as tentativas progressistas abortadas pelas alianças mal formadas, pelos oportunistas, o dinheiro abocanhando tudo, fazendo com que as almas puras, que realmente sonham com a vitória popular acabem em escombros.

Apesar de ter sido feito em 1967 o filme segue tendo uma força absurda e uma atualidade inacreditável. Isso sem contar na estética fantástica típica de Glauber, talvez o cineasta mais importante do cinema nacional. Terra em Transe é estrelado pelo grande ator Jardel Filho, e conta ainda com José Lewgoy, Paulo Autran, Paulo Gracindo, Mario lago e Danuza Leão. Um filme que deve ser vista. Esta livre no Youtube.

Pad Man


A dica de hoje é o filme indiano Pad-Man , traduzido como Homem Absorvente.  Ele foi produzido em 2018, dirigido e escrito por R. Balki , com Akshay Kumar , Sonam Kapoor e Radhika Apte nos papéis principais. É uma comédia misturada com drama totalmente falado em hindi, a língua original do povo indiano.

A história é baseada na vida do ativista social Arunachalam Muruganantham , um empresário da comunidade Tamil Nadu. Conta a história de um jovem comum, de uma aldeia perdida em algum lugar na Índia, que se depara com a vergonha da esposa nos dias de menstruação. Ele percebe que ela usa panos sujos durante os dias de sangramento e procura inventar uma forma de lhe garantir uma higiene segura. O amor e o cuidado pela esposa fazem com ele tente fabricar absorventes de baixo custo, visto que o valor de uma caixa deles é absurdo.

Mas, as tentativas de fazer absorventes não são bem vistas nem pela mulher, nem pela família e logo a aldeia toda rechaça Lakshimi, acusando-o de pervertido, uma vez que ele passa a perseguir as mulheres tentando encontrar alguém que experimente o absorvente que fabricou. O filme mostra a triste realidade da Índia que em 1998, ano em que a história começa, menos de 15% das mulheres usavam absorvente nos dias de ciclo menstrual, vivenciando uma série de doenças por conta disso.

O filme é a caminhada desse obstinado homem na busca por conhecimento para fabricar um absorvente que fosse eficaz tanto quando o vendido na farmácia. Seu sonho é vender o produto a apenas duas rupias, quando no comércio custava 55 rupias, totalmente inalcançável para a população mais pobre.

O personagem principal é de uma candura sem limites e num país ainda eivado de preconceitos e tabus, apesar de todas as dificuldades ele não desiste. Sua jornada o leva para longe de casa, faz com que perca a esposa, e o faz ser repudiado por todos. Até que finalmente ele consegue uma primeira cliente e aí tudo muda.

Pad-Man poderia ser um filme clichê, mas ele retrata a saga de uma pessoa real que não só consegue produzir o absorvente como também passa a mudar a vida de milhares de mulheres na Índia. A história de Lakshmi, ou do real Arunachalam, é um libelo à tenacidade, ao amor e ao cuidado. Vele a pena conferir. Tem no Netflix.