Coco



COCO – A dica de hoje é o filme Coco, que na versão brasileira chama Viva - A Vida é uma Festa. O filme tem como base o festivo dia dos mortos mexicano e conta a história do menino Miguel, que quer ser músico enquanto toda a família é contra. Isso porque seu trisavô, que era músico, um dia saiu de casa e nunca mais voltou, deixando a mulher e a filha, que viria a ser sua bisavó. Aquilo abriu uma ferida em toda a família e a própria música foi proibida na casa para sempre.  

Mas, Miguel ama a música e ama também um famoso cantor local, Ernesto de la Cruz, que acabaria sendo um astro e um ícone nacional, autor de muitas músicas famosas. A cidade o reverencia e há até uma estátua dele por ali.  Miguel sonha ser como ele e um dia, ao construir seu violão observa que o violão que está na foto de La Cruz é o mesmo que está na foto de sua trisavó, na mão do trisavô que abandonou a família. Ele conclui que Ernesto de la Cruz é o seu trisavô. Ninguém acredita nele e a família acaba quebrando seu violão.  

No dia dos mortos, disposto a participar de um concurso ele rouba o violão que está no túmulo de Ernesto e a partir daí vai entrar numa inacreditável aventura no mundo dos mortos. Lá ele inicia sua busca pelo parente famoso, e acaba encontrando um outro morto, que está sumindo, porque ninguém mais lembra dele. A amizade entre os dois acontece e o morto vai ajudá-lo a encontrar Ernesto.  

É um filme de extrema delicadeza, como é a festa dos mortos mexicana. A própria história do amigo que está desaparecendo é a essência dessa festa, pois ela existe para celebrar e festejar a memória dos que já se foram, justamente para que os mortos não sejam jamais esquecidos. A morte de verdade seria o esquecimento.  

É colorido, cheio de ternura e nos faz chorar litros. É uma boa para curtir com toda a família.  



Snowden



O mundo moderno tem três heróis que são praticamente desconhecidos da população. Eles não usam capas, nem escudos, nem têm filmes da Marvel. São Chelsea Manning, Julian Assange e Edward Sowden, os três personagens que revelaram ao mundo os crimes dos Estados Unidos, seja no campo da vida mesma, nas guerras, ou no mundo virtual. Todos eles sofrendo barbaramente. Chelsea ficou presa por anos, sofrendo as mais terríveis torturas. Julian Assange padece de prisão e tortura na Inglaterra e Snowden está exilado na Rússia. Muito pouca gente se importa com eles. 

Sobre Assange e Manning temos as notícias e sobre o Edward Sowden já existe filme contando como ele se depara com a verdade sobre a coleta e manipulação dos dados das pessoas na internet.  Por isso a dica de hoje é justamente a do filme Snowden, sob o comando do conhecido diretor Oliver Stone, tendo como protagonista o ator Joseph Gordon-Levitt, que faz o Edward.  

A proposta de Stone é justamente apresentar o ex-agente da CIA, que é procurado por traição, como um herói, não apenas nacional, mas mundial. E a narrativa conta como ele, atuando por dentro da instituição de vigilância e espionagem mais conhecida do mundo, percebe que a vida privada das pessoas e suas informações pessoais estavam sendo violadas. Óbvio que o filme acaba apostando também numa versão romanceada da vida de Snowden, mas o ponto central continua sendo a denúncia que ele fez e que o tornou um pária. 

Assim como Chelsea Mannning entregou as imagens dos ataques à civis pelos soldados estadunidenses à Assange, tomada pelo espírito do patriotismo, Snowden também aparece assim. Os dois acreditavam piamente no sistema estadunidense e pensavam que ao denunciar os crimes, estariam fortalecendo a chamada democracia dos Estados Unidos. Mas, aprenderam que isso é uma quimera. Os dois foram considerados traidores.  

O filme de Oliver Stone teve um relativo sucesso quando foi lançado, mas logo caiu no esquecimento, afinal, a máquina ideológica do país, tratou de apagar a imagem de herói de Snowden e ele continua na lista dos mais procurados do FBI. Ao contrário de Assange, que se asilou na embaixada do Equador e foi entregue a justiça inglesa pelo presidente Lenin Moreno, Snowden conseguiu asilo na Rússia e lá segue protegido.  

Assistir ao filme de Stone é conhecer em profundidade sobre o sistema de vigilância ao qual estamos todos submetidos com nossos computadores e celulares. Vale conferir para entender o processo e para reconhecer um herói do nosso tempo.  



Balzac e a costureirinha chinesa


A dica de hoje é o filme Balzac e a Costureirinha Chinesa, uma produção fraco/chinesa, dirigida por Sijie Dai, escritor chinês radicado na França. Ele é autor do livro de mesmo nome que foi um sucesso de vendas no final dos anos 1990 e foi ele mesmo quem adaptou para o cinema em 2002.  A história se passa nos anos 70, no auge da Revolução Cultural Chinesa, quando dois jovens, filhos de gente considerada burguesa, são enviados para o campo para a reeducação, onde são despojados de seus livros, taxados de reacionários. Um deles, Ma, consegue fazer com que seja permitido ficar com o violino, mentindo que a música que ele toca – Mozart - é uma homenagem ao presidente Mao. Os dois passam a fazer parte do cotidiano da aldeia e são escolhidos para irem na cidade ver filmes, para contar depois aos moradores da comunidade. Lou, que é bom de conversa, inventa os roteiros, criando histórias dramáticas e divertidas.  

Eles então conhecem a costureirinha da vila e passam a compartilhar as horas. Então descobrem uma mala de livros e passam a realizar as leituras, escondidos em uma caverna. Ma e Lou além de apresentarem os romances de Balzac e outros escritores para a costureirinha, a ensinam a ler. O mundo dos adolescentes vai se abrindo, acompanhado das narrativas, e também vai nascendo o amor. Obviamente que os dois se apaixonam pela menina e acabam vivendo situações ora doces, ora bastante traumáticas.  

O filme é uma crítica ao processo revolucionário cultural chinês e mostra o quanto a leitura pode ser transformadora no plano pessoal. Tanto que a costureira, depois de tantas aventuras livrescas, decide viver sua vida de maneira diferente. Ma e Lou igualmente se transformam com aquela vivência no interior e ambos vão depois encontrar seu caminho, marcados para sempre pela comunidade e pelos livros.  

O filme, estrelado por Chen Kun, Liu Ye e Zhou Xun é carregado de elementos autobiográficos do roteirista e diretor Sijie Dai, que passou pela reeducação quando jovem. É um trabalho bonito, singelo e inspirador. É possível vê-lo, legendado, livre, no Youtube.  


Floresta dos Segredos


Para quem gosta de séries policiais a dica de hoje é uma série sul-coreana chamada "Stranger (o título em inglês para a original Floresta dos Segredos), que tem um enredo bem diferenciados. O personagem principal é um procurador que não é capaz de expressar emoções, por conta de uma intervenção cirúrgica no passado. Fazendo par com ele tem um jovem policial que acaba dividindo com o procurador uma complexa investigação de assassinato que leva ao desmantelamento de altos figurões da política.  

A trama é inteligente, diferente e prende a gente em cada capítulo. Tem ainda a qualidade de trazer para nosso conhecimento a realidade do mundo coreano, seja na organização da justiça, da polícia ou dos costumes. O ator principal, Jo Seung-woo, é extraordinário, pois apesar de seu personagem não expressar as emoções ele consegue traduzir, em pequenos detalhes, a beleza do seu interior. Em vários momentos a gente se emociona e ri com o sisudo investigador, que tem a Justiça como sua meta principal. Todos lhe temem, pois ele não se furta de enfrentar os graúdos. 

Na segunda temporada ele está de volta a Seul, depois de ter sido enviado ao interior, como “punição” por ter cumprido seu dever. E, de novo, uma trama aparentemente aleatória vai enredando os grandões da política e da Justiça. E lá está ele com seu olhar impenetrável, para garantir que todos sejam punidos. A série é inteligente e divertida. A policial que faz parceria com o procurador é a atriz Dona Bae, igualmente sensacional. Vale ver. Tem na Netflix. 


Acusados


A dica de hoje é o filme Acusados, uma produção canado-estadunidense de 1988, dirigida por Jonathan Kaplan com roteiro de Tom Topor. A história foi protagonizada pela atriz Jodie Foster, que inclusive ganhou um Oscar pela sua atuação.  

No filme, uma garçonete de nome Sarah Tobias é estuprada por três homens em um bar local, enquanto outros assistem e aplaudem. Toda trama se desenvolve em cima do julgamento dos estupradores depois que Sara e a promotora Kathryn Murphy decidem processá-los, bem como aos outros que incentivaram o ataque.  

Realizado no final dos anos 1980, o filme mostra de maneira crua tanto a cena do estupro quanto as do julgamento no qual, obviamente, é a vida da garota que fica sob suspeita. A roupa que usava, estava bêbada, dançava sensualmente, estava sozinha num bar. O que poderia esperar? A atuação de Jodie Foster é impecável e sua personagem reforça aquilo que todas as mulheres do mundo insistem em deixar bem claro: quando se diz não, é não. Pouco importa se a mulher é santa ou puta. Pouco importa se está pelada ou vestida. Pouco importa se dança sensualmente ou está sentada. Pouco importa se está flertando ou não. Quando se diz não, é não.   

Acusados discute a situação de classe – Sara era uma garçonete - discute o ódio às mulheres, a parcialidade do judiciário, a hipocrisia da sociedade e a eterna proteção ao macho que não consegue ficar com seu órgão dentro das calças. 

É um filme duro de ver, mas necessário, principalmente quando vivemos numa sociedade que não mudou sequer um milímetro dos anos 1980 para cá no que diz respeito à mulher. E antes que alguém faça algum comentário imbecil é importante salientar que em países como Índia, onde o estupro é notícia diária, as mulheres andam cobertas dos pés à cabeça, não vão a bares sozinhas, não andam bêbadas. Logo, o estupro não diz respeito à mulher. O estupro é uma expressão de poder do macho e deve ser combatido sem trégua.  

Acusados é uma pedida necessária. Não deixe de ver. Está livre, no Youtube. 


Um retrato de mulher


A dica de hoje viaja para o passado, lá nos anos 1940, trazendo um filme da era de ouro do cinema. É o “Um retrato de mulher”, dirigido pelo austríaco/alemão Fritz Lang, enquadrado no gênero noir, uma espécie de subgênero dos filmes policiais e de suspense, bastante influenciado pelo expressionismo alemão. Consta inclusive que Lang teria sido convidado por Hitler, que era um amante do cinema, para fazer filmes de inspiração nazista. Foi aí que ele fugiu para Paris, chegando depois aos Estados Unidos.   

Um retrato de mulher mostra um momento da vida do professor Richard Wanley, interpretado por Edward G. Robinson, que dá aulas na Faculdade Gotham, em Nova York. Ele e os amigos ficam obcecados por um retrato de mulher visto numa galeria de arte, perto de um clube para cavalheiros que frequentam. Pois uma noite, depois de muita conversa sobre ela, Richard posta-se em frente ao retrato para mais uma mirada, e eis que ali aparece a misteriosa  modelo, interpretada por Joan Bennett. Eles iniciam uma conversa, que começa em um bar e continua na casa dela, onde ela lhe mostra o esboço de outros desenhos. Tudo vai bem até que aparece o então namorado da modelo que, enciumado, agride o professor. Richard consegue se esquivar, mas acaba matando o homem com uma tesoura.  

A partir daí o que poderia ser um encontro de amor vai se enredando numa trama de suspense, com os dois tentando esconder o corpo, livrar-se de um chantagista e buscando driblar a polícia. Ele mesmo acompanha as buscas e todo o trabalho de investigação junto com um amigo do clube, até que alguns pequenos detalhes vão colocando o professor como o principal suspeito. Sua vida de pequeno-burguês vai se desmoronando. 

É um filme bastante intrigante, com um roteiro bem amarrado e um final inusitado. Feito em preto e branco foge completamente da estética a qual estamos acostumados, a qual prioriza mais os efeitos que a trama. Em “Um retrato de mulher”, o que vale mesmo é o roteiro, a direção e o trabalho dos atores. Para quem gosta de fuçar o passado é uma boa pedida.  


Chocolate


Para quem gosta de romance a dica é uma série coreana chamada Chocolate. Ela traz a história de um amor que começa na infância e que vai se perdendo no tempo por conta dos caminhos que cada criança vai trilhando. Crescidos, eles voltam a se encontrar, mas apenas a moça o reconhece. Ele é médico e ela uma mulher em luta com seus dramas e traumas. Ao longo da série eles vão se reaproximando e se redescobrindo, ainda que cada um tenha de viver e enfrentar seus próprios demônios. 

A série não apenas reproduz uma história de amor e seus percalços, mas também dá uma boa visão da sociedade sul-coreana na qual ainda é muito forte o autoritarismo da família, dos mais velhos, dos homens e o valor das tradições. 

Chocolate centra sua narrativa no amor de Lee Kang e Moon Cha Young, mas também apresenta outros dramas paralelos, igualmente envolventes, tais como o do primo do protagonista, ensinado a odiá-lo por conta da herança familiar, o da mulher do diretor do hospital que tem Alzheimer e os dos pacientes no dispensário que atende doentes terminais no qual finalmente Lee e Moon Cha vão reconectar seu amor. É uma série cheia de pequenas ternuras, de delicadezas típicas da cultura oriental e repleta de momentos emocionantes. 

É uma história de amor, destas bem dramáticas, mas que vai se desenrolando para um final feliz, no qual cada personagem consegue ultrapassar as dores e encontrar novos caminhos de alegria e bem-viver. Um seriado para almas leves. Tem no Netflix.