Hiroshima, meu amor


A dica de hoje é um clássico do cinema francês, filmado em 1959, sob a direção de Alain Resnais. A trama conta a história de um encontro fortuito entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês, na cidade de Hiroshima, que foi devastada pela Bomba Atômica estadunidense no final da segunda grande guerra. A cidade e sua tentativa de superação da tragédia aparece também como um personagem e é a partir dela que o casal vai se envolvendo.

Os dois amantes passam juntos uma noite e o homem se enamora, seguindo-a pela cidade no dia seguinte, permanecendo ao seu lado até a hora da partida. Enquanto o tempo passa a atriz conta do seu primeiro amor, um jovem alemão que conheceu quando sua cidade, Nevers, foi ocupada pelos nazistas. E, a partir daí relembra todo o drama que viveu ao ser descoberta e humilhada pelos vizinhos, sendo tosada e escondida numa adega, só libertada quando o jovem alemão morreu.

O filme mistura a tragédia pessoal da mulher com a realidade brutal da guerra. É bonito, triste e intimista. Ele também representa um marco no cinema, pois foi a primeira vez que se usou o recurso do flaskback  (cenas do passado), hoje bastante comuns. Em preto e branco, com uma narrativa arrastada, mas de nenhuma maneira cansativa, é considerado uma dos filmes mais belos de todos os tempos. Eu recomendo.


O sol do meio-dia


O filme de Eliane Caffé, produzido em 2010, é de uma belezura sem fim. Primeiro que ele é todo rodado no estado do Pará, mostrando partes de um Brasil que muito poucas vezes se vê na tela grande. Depois, porque mostra um bailado extraordinário de atuação, com dois grandes atores brasileiros: Luis Carlos Vasconcellos e Chico Diaz. É definitivamente muito bom de se ver. São gigantes.

A história nada de tem de original, mas nos pega justamente por traduzir o Brasil real, interiorano, nortista. Dois homens na luta cotidiana pela vida e o amor pela mesma mulher. Um deles (Vasconcellos) é um sujeito atormentado que acabou de sair da cadeia depois de ter cometido um crime. E o outro (Diaz) um malandro brasileiro típico que vive fazendo malabarismo para se manter vivo numa realidade de miséria e de opressão. Juntos eles embarcam rio acima numa jornada que vai enveredando para a tragédia.

Nos caminhos dessa vida marginal, eles encontram Ciara em busca da filha. Cada um a seu modo, se apaixona. Artur, fugindo, por não se sentir digno e Matuím, direto e certeiro, querendo simplesmente um amor. No andar da história impossível não se apaixonar por esse macunaímico desastrado interpretado magistralmente por Chico Diaz e a gente vai até o fim torcendo por ele. É um sobrevivente que nos desperta a mais profunda ternura.

Mas, o coração de Ciara bate por Artur, até que venha o desenlace. O filme tem alguns vazios de narrativa, mas nos carrega. O final parece abrupto, é cru e sem doçura. Mas, não poderia ser diferente, considerando a vida pesada dos trabalhadores desses cantões do Brasil.

De qualquer forma é um filme para se ver. Uma ou mais vezes. Encantando-se com Matuím, esse valente, que mesmo na mais pura agonia encontra força e graça para seguir em frente, saltitando como um Pererê. 

O filme está livre no Youtube.

A dama de Baco


A Dama de Baco, ou The Baccus Lady, é um filme sul-coreano de 2016, dirigido por E J Yong. Narra o triste fim de uma prostituta velha, que oferece seus serviços nos parques de Seul. Um retrato cru da realidade das pessoas idosas, pobres e sozinhas que precisam enfrentar o peso da existência além da decrepitude. Infectada com uma doença venérea por conta da profissão So-Young encontra um garoto perdido na rua, deixado para trás depois de sua mãe esfaquear o pai. Ela o leva para sua casa onde também orbitam um homem mutilado e uma mulher trans, cada um com seus dramas. E os três se revezam na atenção, oferecendo mais do que podem.

Em meio aos cuidados com o garotinho So-Young segue com a vida de encontros fortuitos e acaba encontrando um antigo cliente que sofreu um derrame e que lhe pede para ajudar a acabar com a vida de sofrimento. A partir daí o filme vai revelando a triste existência dos velhos sul-coreanos perdidos na solidão e na pobreza. Apesar de ser considerada a décima primeira economia do mundo a Coreia do Sul registra a mais alta taxa de miséria entre pessoas idosas. Um drama recorrente na periferia capitalista onde o velho é considerado um inútil.

Num dos momentos do filme um documentarista que pede para entrevistar a prostituta pergunta a ela sobre o porquê de estar se prostituindo e ela diz: “foda-se a verdade. As pessoas não estão nem aí para isso”. O retrato mais acabado da realidade atual de um mundo no qual o estado se desobriga das pessoas restando a elas a solidariedade dos mais próximo que vivem tantas misérias quanto.

O filme é duro e triste, retratando uma Coreia para além dos doramas açucarados. Vale ver para compreender a extensão da miséria do capitalismo. Disponível no streaming Mubi. 


Reservation dogs


A dica de hoje é a série Reservation Dogs, ou Cães da Reserva, em português. Trata-se de uma produção dirigida, escrita e estrelada por indígenas, ambientada no estado de Oklahoma, nos Estados Unidos, onde vive o povo Cree. Ela está rotulada como comédia, mas tem seus momentos de profunda tristeza e reflexão. A produção é do neozelandês, Taika Waititi, que tem descendência Maori e a direção fica a cargo de Streling Harjo, dos povos originários dos Estados Unidos. 

A série gira em torno de um pequeno grupo de jovens que vive numa terra indígena, e que busca cotidianamente os meios para sair de lá, e fugir em direção da Califórnia, considerada a terra das oportunidades. Eles passam os dias entre a escola, o ócio e a invenção de pequenos e grandes furtos que praticam para juntar dinheiro. A cada episódio vai se descortinando a realidade das famílias que vivem nos espaços reservados aos indígenas, os dramas, os mitos, as histórias fantásticas, a solidariedade, o humor, as estratégias de sobrevivência, a relação com os não-indígenas num país tão marcado pelo racismo. 

Os jovens confinados nas terras indígenas sentem a vida escorrer pelas mãos, sem oportunidades, por isso o sonho de escapar. Mas, na medida em que vão se envolvendo com outros personagens mais velhos e, mergulhando na realidade de sua história e sua cultura, acabam percebendo que ali está uma realidade que precisa ser protegida e que a luta coletiva é o caminho. Os atores são de primeira qualidade e os roteiros intensos e emocionantes. É a primeira vez que a chamada “indústria cultural” abre espaço para uma produção assim uma vez que os indígenas sempre são retratados ou como vítimas de um passado que ficou para trás, ou como figurantes de uma história que parece não lhes pertencer. 

Na série Cães da Reserva eles aparecem como protagonistas de suas vidas, com todas as dores e belezas de ser quem são. Vale a pena conferir.

Pode ser vista, gratuitamente, no sítio seuseriado.com 


O gato amarelo


A dica de hoje é o filme cazaquistanês, “O gato amarelo”, produzido em 2020 e dirigido por Adilkhan Yerzhanov. Conta a história de um jovem que sai da cadeia disposto a mudar de vida, montando um cinema nas montanhas do Casaquistão, onde vive. Já no primeiro dia depois da liberdade ele tenta encontrar um emprego, mas é impedido por um policial, que é seu irmão e também parte de uma banda criminosa. A intenção é fazer com que ele volte a vida de crimes servindo a um bandido local, destino natural da gente daquele lugar. Sem saída ele vai e nessas andanças acaba conhecendo uma garota, que vive numa casa de prostituição. Ele ganha uma noite com ela e passa o tempo falando do seu sonho de montar o cinema, apaixonado que é pelo filme O samurai, com Alan Delon, que viu inúmeras vezes na prisão.

Os dias passam na calorenta e vazia estepe até que Kermek se vê diante da ordem de matar uma família inteira. Ele não cumpre e foge com o dinheiro, disposto a fazer acontecer o seu sonho. Mas, naquelas aldeias perdidas do Casaquistão, parece não haver possibilidade de fuga. Ainda assim, ele vai em busca da jovem prostituta e a leva junto para a aventura de construir o cinema. É uma relação mesclada com a dureza da realidade e a ternura que os dois conseguem ter apesar de tudo. As cenas são lindas e os diálogos cheios de pureza.

Mas, a cada passo que eles dão, a gangue que os persegue também chega, fazendo com que novamente tenham de fugir. Por fim, sem saída, Kermek tenta mudar seu destino conversando com o bandido local. “Porque temos de viver como cães? Por que não mudamos isso? “. Uma indagação que fica no silêncio.

O final é triste e impactante. Expressa toda a dureza de uma cultura e a brutalidade de um cotidiano que parece imutável. Retrata a triste lenda do gato amarelo, prática usada no Casaquistão para incendiar terrenos que depois serão tomados pela grilagem. Uma realidade tão distante e ao mesmo tempo tão próxima, pois assim como é lá no leste Europeu também pode ser numa favela em El Salvador ou num morro do Rio de Janeiro. 

O trabalho é lindo. A história é dura. Mas ainda assim, eivado de humanidade. O filme pode ser visto na plataforma Mubi.  


A voz suprema do blues


O filme é um encontro de gigantes. Não tem efeitos especiais, nem tiros, nem nada que roube a atenção. Tudo gira em torno de diálogos muito bem construídos e a maravilhosa atuação de Viola Davis, Chadwick Boseman e o veterano Glynn Turman. A história se fecha dentro de um dia de gravação da lendária  Mãe do Blues, Ma Rainey, na cidade de Chicago, na década de 1920, num tempo em que os negros brilhavam na música, mas seguiam sendo discriminados e roubados no seu talento e na sua riqueza musical. 

A trama traz os dramas vividos pelos negros no negócio da música e também se desenrola a partir de relações afetivas, ou não, entre os também talentosos músicos de Ma Rainey. Viola, que faz a mãe do blues, está sublime, expressando como ninguém a dualidade da vida do negro naqueles dias. Ela é famosa, rica, tem uma amante jovem e bonita, mas segue sendo tratada como um ser humano de segunda linha. Ela se rebela, do seu jeito. 

Na banda que a acompanha está um talentoso e ambicioso trompetista, Levee, que é interpretado por Chadwick Boseman, sendo esse seu último papel no cinema, pois logo veio a falecer de câncer. O personagem de Chad se engraça com a namorada de Ma e daí se aprofunda uma tensão que vai acompanhar todo o filme. Nos bastidores o jovem músico, que sonha fazer sucesso com suas próprias composições, vai se desentendendo com um dos colegas, enquanto acontecem discussões sobre o racismo na indústria da música, no país, sobre os dramas familiares e as dores de cada um.

No final do dia, tendo uma música sua recusada pelo produtor, que lhe oferece apenas comprar a composição por 500 dólares, a tragédia aflora a partir de um acontecimento prosaico. As vidas se destroçam enquanto a indústria da música segue seu caminho  branco e racista. É uma dolorosa história que pode ter sido a de centenas de jovens músicos e cantores  impedidos de brilhar por conta da cor. Uma história que não ficou no passado, mas segue ainda hoje no blues, no jazz e no rock.

Vale ver. Está no Netflix.  


Mazzaropi e o Jeca Tatu


Diante de todas as perplexidades que me vieram à cabeça depois de quatro dias discutindo sobre se havia ou não socialismo na América Latina, fui descansar a cabeça vendo filmes antigos. Então me caiu às mãos um clássico do Mazzaropi, chamado “Jeca Tatu”, realizado em 1959. Nesta película, o cinema nacional se mostra na sua plena beleza. Primeiro pela temática. Mazzaropi traz para a tela grande a vida do caipira, do homem rural, premido pelos fazendeiros que roubam terras, que enganam, que se aproveitam do homem simples do campo. Questões como a reforma agrária e a exploração dos trabalhadores rurais aparecem de forma clara, ainda que não fosse essa a intenção do cineasta. A fotografia do filme é uma belezura. A dramaticidade do preto e branco, os enquadramentos estonteantes, a plástica memorável. Coisa muito boa de se ver.

O Jeca Tatu é um pequeno agricultor que precisa comprar comida no armazém e, sem dinheiro, vai vendendo pedaços da terra, até ficar sem nada, tendo de migrar para a cidade. No filme, o dono do armazém é o safado que revende as terras ao latifundiário local. E o fazendeiro é o casca grossa que chega a incendiar a casa do Jeca para tirá-lo da terra. O inusitado é a solução que o povo local encontra para salvar o Jeca Tatu da desdita de ter de ir para a cidade. Eles se reúnem e vendem o voto a um deputado safado. Com essa composição de classe e saída ladina, o Jeca ganha uma casa nova e torna-se um bem sucedido agricultor. 1959 e parece que é hoje. Os mesmos safados de sempre e as técnicas de sobrevivência do povo oprimido.

Pouco sei sobre o Mazzaropi e suas filiações partidárias ou ideológicas, mas que seus filmes nos levam a profundas reflexões sobre a vida real do campo e da cidade, disso não tenho dúvidas. Mesmos as saídas enviesadas que os personagens tomam para resolver seus conflitos permitem longas meditações sobre o povo e o trabalhador brasileiro. Mazzaropi mesmo era um destes brasileiros reais, de vida cheia de percalços, pobreza, dureza. Fez-se sozinho, à facão, trabalhando no circo, que era sua paixão. Atuou no picadeiro até morrer e conta-se que nas lonas pobres ele não cobrava por apresentação. Produziu com dinheiro próprio todos os seus filmes, era um sonhador. Eternizou em película a pureza do caipira, os dramas do seu tempo, era um genial conhecedor da alma brasileira.

Hoje já não se vê mais os filmes do Mazzaropi na televisão, invadida pelo lixo estadunidense. É que os filmes do “Jeca” falam do Brasil profundo, expõe as feridas ainda abertas. Na sua pureza é pura rebelião, perigoso, portanto. Os personagens do Mazzaropi são aquelas criaturas que gostaríamos de ser: alegres, bondosas, generosas, cheias de pureza. É por isso que nos domingos de vadiagem é bom poder fruir desta beleza do cinema nacional. Porque de alguma forma nos encontramos com esse ser profundo que insiste em querer viver nesta selva capitalista que se tornou o mundo. Faça isso. Veja os filmes do Mazzaropi e descubra que houve um tempo neste país em que o cinema falava de nós. Hoje se fala, é fato, mas este que diz da nossa gente não encontra espaço nas salas de cinema, igualmente entupidas de lixo estadunidense.

É por isso que a cultura também tem de se rebelar. Oxalá encontrássemos saídas generosas, criativas e divertidas como as do “ Jeca Tatu”.